
Muito legal me ver aos 48, fazendo o que a menina de seis anos fazia em Salvador. A de seis usava papel, durex, fio de telefone, plástico… mas fazia essencialmente objetos. Na época eu gostava de brincar de escritório para fazer a máquina de escrever (IBM) do meu pai, fazia também o interfone e todos os outros objetos de que um escritório precisava, eram construções de papel e cola. Mas fazia também pulseiras, (muitas, de diferentes modelos e super coloridas) para fazê-las usava, desde um tear feito de tampa de gaveta e pregos (pra imitar o tear que minha mãe tinha na sala de casa, que ia do chão ao teto onde ela tecia tapetes). Usava também tiras de plástico que eu cobria com linha de bordar formando letras e assim produzindo pulseiras com os nomes dos clientes ( : )) e fazia também as que eu achava mais bonitas: com fios de telefone coloridos enodados.
Qualquer que fosse o faz de conta, o que me interessava era construir o que se usaria na brincadeira, uma vez pronto, eu já podia parar de brincar.
Um acidente com as minhas mãos interrompeu essas minhas atividades por tempo suficiente para que a adolescência me fizesse esquecer o que eu amava fazer com as mãos (e com o espírito). Acabei estudando arquitetura e meus projetos saiam da cabeça direto pra maquete. Da imaginação pra madeira balsa e papelão couro com cola. Não me dava bem com linhas desenhadas, acho que desde sempre projeto com tridimensionalidade concreta. Ainda na faculdade “descobri” as bijus: vidro, cerâmica, sementes compunham ali sempre objetos que, hoje reconheço, já traziam minha curiosidade pelo equilíbrio, pelo jogo que as formas podem fazer articuladas com as cores. Me formei em arquitetura com um TFG que era uma de fábrica de jóias, era o que eu, já morando no Rio, estava estudando. Foram muitas diversas experiências em ateliês muito diferentes uns dos outros, nos quais eu aprendi muitas técnicas de ourivesaria. Pude com isso desenvolver um trabalho autoral no qual as idéias me levavam pra banca e nela eu via a matéria prima me devolver possibilidades mais complexas e ricas, o que me fez poder desenvolver um trabalho com o qual eu ainda me surpreendo. Esse trabalho compôs figurinos de novelas, exposições em feiras e lojas muito legais, e me fez estar sempre atenta a outras escalas de trabalho. Estou começando a sair da casa dos milímetros, chegando a centímetros e metros. Podendo ocupar lugar fora do corpo, e chegando, finalmente, a voltar a ocupar novos espaços. Aos poucos a Adornante está me possibilitando voltar a brincar.